14.9.14

Pecado... O que é?


“Quem comete o pecado é do diabo; porque o diabo peca desde o princípio. Para isto o Filho de Deus se manifestou: para desfazer as obras do diabo.” (1 João 3:8)

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Pecado é ceder a tudo aquilo que afronta e contesta a nossa fé, a nossa esperança, e o nosso amor a Deus e ao próximo, diminuído significativamente o nosso potencial humano e a nossa esperança no amanhã, de modo a nos obrigar uma rendição a algum tipo de desespero.

Pecado é a alienação, até a cauterização total, da própria consciência... É saber a verdade, ter meios e liberdade para praticá-la, e mesmo assim negligenciá-la, e, convenientemente, fazer a opção pela mentira a fim de continuar vivendo mergulhado na indulgência do autoengano existencial, transformando a própria vida num obscuro e infértil simulacro de vida, isto é, decompondo-se numa coisa moralmente bizarra, que vista de longe e muito rapidamente, tem aparência de vida, mas que no fundo, quando vista de perto e mais demoradamente, se revela cheia de odores ruins, solidariedades e pactos com a morte.

Pecado é negligenciar o dom do amor, até ao ponto de tornar-se completamente dependente de algum tipo de cultura de morte e ódio, que em médio e longo prazo, aniquila com as melhores possibilidades de liberdade e criatividade do nosso corpo e da nossa mente, destruindo totalmente a nossa capacidade de construir e manter relacionamentos sadios com outras pessoas.

De fato, pecado é a antítese total da liberdade e de tudo que é saudável, uma vez que pecado é um mergulho profundo no reino da escuridão, da dúvida, do ciúme, da pressa, e da vulgaridade que desumaniza a si mesmo e ao outro, e o coisifica - tanto como a si mesmo - como objeto para o nosso uso e prazer, mas nunca como objeto do nosso amor e relacionamento sadio, porquanto, uma vez mergulhada no pecado, a alma do indivíduo adoece, enfraquece moralmente, e perde a liberdade de ser para si mesma aquilo que nasceu para ser, bem como se torna cega e insensível para ver no outro o que ele nasceu para ser, e assim, tendendo sempre para o uso e abuso das coisas e das pessoas, sofre e faz sofrer.

De fato, o pecado é a antítese total da liberdade e da criatividade do indivíduo perante a vida, pois o pecado é sempre mais do mesmo, até o esgotamento de todas as potências do ser, até o tédio total, até a morte total do dinamismo da vida, e de toda e qualquer forma de liberdade de espírito.

Pecado é empanturrar-se do que há de pior e mais nojento no mundo, até a embriaguez total da consciência, até a perversão total da linguagem, do olhar, e dos gestos; até a imersão total no mar sombrio das vulgaridades e banalidades de uma existência vazia de transcendência e sentido.

Pecado é tender sempre para a hipocrisia, até se metamorfosear num sepulcro caiado, limpinho por fora, mas cheio de fedor e podridão por dentro.

Dar às coisas erradas o nome, a dignidade e a honra das coisas certas, por exemplo, chamar a morte de vida, a mentira de verdade, e viver como se o pecado fosse o caminho para santidade e felicidade interior, é pecado.

É pecado ser complacente com o próprio pecado, e disfarçar a frieza, a indiferença, e a maldade interior, tornando-se legalista e exteriormente moralista, religioso e inimigo da liberdade alheia, lutando a gritos e pontapés para transformar tudo ao seu redor, numa horrenda imagem e semelhança da sua própria desgraça e hipocrisia.

De fato, quem reconhece o pecado em si mesmo, e não o afasta de si com severidade, peca contra a própria consciência e dignidade, e desencadeia em si mesmo um processo de obtusidade espiritual que culminará na cauterização total da consciência, tornando-se assim cego e surdo para as coisas de Deus e do seu próximo, porquanto, nada no pecador contumaz é mais previsível do que ele só ter olhos e ouvidos para si mesmo...

É pecado, em nome da cobiça dos tesouros deste mundo, perder a própria alma e a poesia da arte de amar a Deus e amar as pessoas, até ao ponto em que, cheio de justiça própria, se irritar até mesmo com a justiça de Deus.

Quem brinca com o pecado, peca. Quem não se arrepende do pecado que cometeu, peca e é devorado por ele. Quem acusa o outro de pecado, enquanto trata com indulgência o seu próprio pecado, peca. Quem mente, peca... E por fim, quem posa de santarrão, e diz que não peca, mente e a verdade não está nele.

VBMello