19.8.14

Jardim da Alma - Fragmento autobiográfico – metáfora da vida espiritual


Em que grande aridez tem florescido essas poucas flores e frutos da m’alma... Em tudo é um milagre que, nesta terra seca do meu coração, ainda existam umas poucas flores e frutos. Dependesse de mim, tudo estaria perdido...

Muitas são as dificuldades; dentro e fora da alma sobejam impedimentos. Custa-me muito esforço regar as sementes da vida, que em noite escura, Deus, enquanto eu dormia, graciosamente, semeou em minha alma. Ele arou, afofou, e adubou com a presença do seu Espírito, a terra árida da minha alma, e nele semeou as sementes da vida. As sementes da vida são muitas e variadas, mas a terra é completamente seca e árida, e o jardineiro é fraco, solitário, doente e pouco esforçado. Custa-me crer que o Senhor intentou fazer da alma desse pobre jardineiro sem futuro, um jardim para o seu deleite.

Em noite escura e desesperançosa, à minha alma, tal qual cidade abandonada, veio o Senhor em passos suaves, e sem que eu acordasse ou suspeitasse, entrou pelas terras abandonadas da m’alma e nela labutou contra o deserto que pouco a pouco, me ceifava a vida. Cavou, afofou, adubou, cercou e semeou muitas e variadas sementes. Sementes de árvores e de flores da vida. Sementes de justiça, sementes de humildade, sementes de verdade, sementes de amor, sementes de alegria, sementes de mansidão, sementes de gratidão, sementes de pureza, sementes de contentamento, sementes de fidelidade, sementes de fervor, sementes de bondade, sementes de paz, sementes de poesia, sementes de esperança, e sementes de fé... Tudo que naquela terra árida e inútil faltava, ele semeou em abundancia. Mas eu ainda não sabia disso...

Numa amanhã fria e solitária, eis que acordei com o coração ardendo. Surpreendido pela terra cuidada e semeada, sob a força do sol que despontava e tudo queimava, foi tomado por um sentimento de urgência... Era preciso buscar água, regar, cuidar e vigiar as sementes que em minha alma ameaçavam nascer. Todavia o poço era longe, e a minha força era pouca, e eu não tinha com que tirar água, pois o poço era fundo.

E assim, sem nenhuma expectativa de completar a obra que me fora dada, com muita dificuldade e canseira comecei cuidar das sementes semeadas no deserto da minha alma. Duvidava que aquilo um dia pudesse ser um jardim florido... Transformar um deserto num jardim, não conheço trabalho mais ingrato e dificultoso. Era preciso regar uma a uma as sementes, e a água era tão pouca, e mais escassa ainda a minha força e paciência. Todo esforço me parecia inútil e vão, e eu me impacientava e ficava ansioso por qualquer coisa. Eu não via recompensa alguma naquilo. A terra do meu coração era por demais ruim, seca e sem nutrientes, completamente imprópria para essas coisas de jardim. Dia e noite eu só pensava em desistir... Todavia, sem saber bem porque, continuei o trabalho de regar aquelas sementes, que jamais floresciam.

O antigo poço, assombrado pela incredulidade, entulhado de restos de desejos, carne apodrecida, lixo e restos de sonhos jamais vividos, praticamente secou de todo, e o pouco da água que ainda minava era amarga, pestilenta e impropria para o consumo e não muito boa para regar. A fonte de onde minava a água era muito funda, de modo que cavar outro poço estava fora das minhas possibilidades... Eu não possuía nem forças, nem ferramentas para tanto esforço, e mesmo que possuísse, na certeza da inutilidade daquilo tudo, teria me lançado com tão grande desânimo ao trabalho que quando encontrasse água, se a encontrasse, as sementes já teriam morrido na secura daquela terra ingrata, ou então, muito antes disso, teriam sido arrancadas e comidas pelos esfaimados ratos que sempre, talvez vindo do poço entulhado, apareciam por ali.

Menos trabalhoso seria desobstruir o velho poço, e foi o que fiz. Lancei-me ao trabalho imediatamente, mas logo escureceu, e a noite escura e sem estrelas caiu sobre mim trazendo sustos e pavores, eu perdi as forças e a esperança de sozinho concluir tão dificultoso trabalho. Numa breve oração, que jamais foi respondida, pedi pela morte... E assim adormeci na esperança de nunca mais acordar.

Os dias e as noites passavam como se não passassem, e eu perdi a noção de tudo... Sob os meus pés a terra árida, sobre a minha cabeça o sol escaldante, e isso era tudo. Largadas ao sol inclemente as sementes clamavam por rega, quase podia ouvir o clamor delas. Que louco teria semeado aquelas sementes ali?! Eu me perguntei. Certamente que alguém zombava de mim. Mas quem? Eu vivia tão afundado no deserto, tão desvalido de tudo e de todos... Não possuía amigos, nem riquezas, nem nada. Era só eu o deserto. Eu não tinha vizinho algum, e a cidade mais próxima eu nem sabia em que direção ficava. Mergulhado em desespero e solidão absoluta, prostrei-me, mas não havia palavras suficientes para pronunciar uma oração... Acho que desmaiei... quando voltei a mim, olhei aquele cenário de destruição e me perguntei se alguém não zombava de mim. Deus meu! Quem zombava de mim, semeando tais sementes nos desertos da minha alma? Quem brincava comigo? Que demônio zombava de mim?

O deserto era a minha casa e a minha natureza. Fazia já muitos anos que eu havia deixado tudo e para lá rumara com a firme intenção de morrer. Andei para dentro daquela imensa solidão até as minhas forças todas se esgotarem. Em noite fria e solitária, longe de qualquer forma de vida, entrei num buraco da terra e ali fiquei sozinho e carente de tudo. Em pouco tempo a minha pele ficou coberta de queimaduras, e nas noites frias um espírito de morte me visitava, e me dizia boa noite; passava comigo a noite, e na manhã seguinte, ao partir me dizia bom dia, e sumia novamente no abismo, sempre levando um pedaço precioso da minha vida com ele. E assim eu fui morrendo aos pedaços. Primeiro a morte em vida me levou o amor, e eu fiquei completamente pobre de amor, sem mesmo um resto qualquer de amor-próprio. Depois ela me levou a humildade, e eu me tornei absurdamente arrogante, e por fim ela me levou a paz, a fé, e a esperança e a poesia... Perdida estava a minha alma.

Não demorou até que o meu coração ficasse condenado a ser pedra pura. Os sonhos noturnos me fugiram todos, e os devaneios já não existiam... e o deserto se tornou a minha segunda natureza, que pouco a pouco foi devorando a minha existência, e eu fui me tornando parte dele, até que por fim ele com toda a sua aridez e esterilidade se tornou a minha primeira natureza. Eu agora era o deserto. Depois que morte me levou a humildade, e eu me tornei o rei da solidão do meu deserto. Fazia guerra contra mim mesmo. Todos os dias, mês após mês, eu só pensava em como morrer o mais rápido possível. A vida já não habitava em mim. E tudo em mim era feito de morte e treva. Eu, feito em mil fragmentos de mim mesmo, tornei-me uma multidão violenta que lutava contra eu mesmo, e eu nunca vencia. Construía castelos na areia, depois os pisava com raiva. Eu gritava e rilhava os dentes contra os céus e contra os mares, cuspia e pisava forte a terra. De tudo eu zombava, a tudo eu abominava. Eu era o demônio do meu inferno particular. E foi assim que pouco a pouco quase nada me restou de vida. A prudência, a misericórdia, a alegria, a esperança e a fé me abandonaram.

Descuidei de mim como jamais vi alguém se descuidar... Vivia como bicho, e bicho assustado... Meu cabelo agora era um pelo seco e duro que se misturava à minha barba, e quem me via, já não me reconhecia mais. E eram muitos os que morriam de medo de mim. Um olhar meu era fonte de pavor para eles... A todos eu enxotava com meus olhares... E as minhas palavras feriam mais que navalha... Meus olhos não possuíam brilhos algum, e os meus ossos todos podiam ser vistos, pois eu era somente pele e osso. Eu me alimentava dos restos mais asquerosos, e por fim, de tanto rastejar para catá-los, desaprendi de andar com a cabeça erguida, e tornei-me eu mesmo como um asqueroso réptil rastejante.

Não demorou até que se espalhasse por todos os cantos daquela região que ali, no olho mais profundo daquele deserto, vivia um demônio. Ninguém ousava se aproximar. E foi assim que a solidão me abraçou para sempre. A morte zombava de mim. E por fim perdi o medo dela, e por ela me apaixonei. Sonhava acordado com ela. Eu já havia morrido tanto que já não havia quase mais nada para morrer. Acaso alguém me visse dormindo, que eu fazia muito pouco e com grande dificuldade, diria que eu estava morto, pois de fato estava.

Então, eis que agora, assim, sem mais nem menos, eu acordei de manhã, e as terras secas da minha alma tinham sido invadidas por alguém que passou a noite toda afofando aquela terra inútil e miserável, e nela semeou tantas sementes, que eu ao acordar, tão maravilhado fiquei que não sabia se ria ou se chorava quando vi aquilo.

Certamente que alguém zombava de mim, o desgraçado. Olhei mais de perto e mais calmamente e pasmei. A alma estava inteira semeada de sementes de vida. Querendo saber que sementes eram aquelas, enfiei a mão na terra quente e estéril e arranquei uma sementinha, era tão pequena, tão frágil, e o deserto era tão grande, tão profundo... Entretanto, ouvi como que correndo por todo o meu ser, um som como o som de águas correntes, e o meu coração pulsou forte. A semente me queimou a mão. Dei um grito e lancei longe a semente. Andei de pés descalços no meio daquelas covas de sementes, e elas sumiam no horizonte, de tão imensa que era a plantação. Deus meu! A terra toda da minha seca alma estava semeada com sementes de vida! Você não pode imaginar a alegria, que pela primeira vez, me tomou o coração.

Cansado, pois me cansava ao menor esforço, ali mesmo me deitei e dormi. Cobri-me com terra e areia, e mergulhei no silêncio do sono. E, pasmem, tive um sonho. Ah! Você não vai acreditar se eu contar, mas a verdade é que eu não sonhava, fazia já uns dez anos. Naquela noite, em sonho, eu me vi em pé no meio de um maravilhoso jardim, e a minha alma dançava de alegria. Havia fartura de tudo, flores e árvores com muitos frutos... Súbito acordei. Olhei aquela imensidão de sementeira que havia se tornado a minha alma, e imediatamente fiquei sabendo do que eram aquelas sementes que me rodeavam os pés. Eram sementes de amor, esperança e fé.

Vi que a terra ainda estava seca e morta... Na mesma hora uma urgência dobrada de regar aquelas sementes me tomou a alma. Com muito custo retirei um pouco de água do velho poço e reguei algumas sementes. Mas o esforço era demasiado e a água era imprópria. Então, rápido, sei lá de onde me veio a força necessária para tomar essa decisão, me atribuí a obrigação de limpar o velho poço.

Mas era um poço muito fundo. Era preciso descer e subir e eu não tinha escada. Fiz o que pude, mas logo, pois já era tardinha, esgotado e faminto, caí no sono. Na manhã seguinte, quando depois de caminhar mais de dois quilômetros para retomar os trabalhos de limpeza, pois o poço ficava demasiado longe das sementes, tomei um susto ao chagar até a boca do poço. Havia agua viva correndo nele!

Como pode ser isso? Enquanto eu dormia alguém veio e limpou o poço. Tomei um pouco da água. Oh, meu Deus! Não havia água melhor que aquela no mundo todo! Renovei as minhas forças e saí a regar as sementes. Mas o poço era muito longe e logo caí derrotado pelo cansaço. Era muito trabalho para uma só pessoa. Racionava a água, deixava de beber para regar as sementes.

Regava semente por semente, contando as gotas de água que despejava sobre elas. E assim os primeiro mês passou. Eu tinha prometido para mim que não deixaria nem uma daquelas sementes morrer. Mas nesta vida existem muitas coisas que não dependem somente de nossos juramentos.

Certa manhã ao chegar ao poço, caí em desespero. O poço estava seco. Não havia uma gota de água. Desci pela corda e raspei o fundo, mas não havia nada, só havia a laje de pedra e mais nada. Era o fim do meu jardim. Depois de um tempo que me pareceu uma eternidade, chorei copiosamente, acho que pela primeira vez em muitos anos. Retornei me arrastando para o meu buraco na terra, e chorei o dia todo.

Os dias passavam e o sol inclemente abrasava e destruía tudo. O fogo queimava a superfície da terra e o deserto tudo devorava... A morte aparecia ao alcance dos meus olhos, e sorria. E eu só fazia chorar. Não havia mais esperanças para a minha alma... Uma noite ouvi som de passos, e tropel de cavalos... Tive muito medo e me encolhi no fundo da terra, e o silêncio me abraçou até o amanhecer.

Para meu horror, enquanto eu me escondia alguém veio no meio da noite e enterrou o poço. Então desisti, e um instante eu me conformei com a morte. Tudo havia sido só mais um sonho. Não havia sementes nem nada. Era tudo ilusão. Alucinações do deserto. Olhei e não vi nem sinal de sementes. Cavei a terra e nada encontrei. Certamente que tinha caindo numa ilusão. O diabo me visitara, certamente que visitara.

Os dias e as noites passaram, e eu continuei minha amarga vida no deserto. Até que uma noite, no meio da madrugada, quando o sonho me havia fugido novamente, eu olhando a imensidão estrelada do céu... De repente o ar se encheu do farfalhar de muitas asas... Meu coração disparou. O ar se encheu de alegria e paz. Tive um pressentimento e disse sussurrando para mim mesmo: Anjos! Anjos!

Então eu acordei de repente, o sol já ia alto ao meio do céu, e eu ouvi o som de um pássaro feliz... Abri os olhos e corri ao mesmo tempo. A terra estava coberta de pássaros que bicavam as sementes. Corri no meio deles e os enxotei... De repente, bem no meio da terra os meus pés se afundaram na areia, até a altura dos joelhos. Areia movediça, eu pensei. Mas então, com a suavidade do pousar de uma pomba, a água minou ao meu redor e levou a areia e eu fiquei em pé no meio de uma pequena fonte de águas vivas. Inundado por uma alegria sem igual. Saí correndo e pulando. A felicidade havia voltado, e agora para ficar... Corri, busquei meus baldes e reguei abundantemente as minhas sementes. Trabalhei o dia todo, e não sentia fome, sede ou cansaço. E no fim do dia mergulhei de corpo inteiro naquela maravilhosa fonte...

Depois de muitos dias uma relva fina apareceu sobre a superfície da terra, e as sementes começaram a brotar. Mas havia o sol cada vez mais inclemente, e a água da pequena fonte começou a escassear, e eu não dava conta de regar tudo, e havia os pássaros que vinham ao amanhecer e ao entardecer. Sozinho eu não daria conta de tanto cuidado.
Mas, então, para minha surpresa, a pequena fonte, sem qualquer ajuda minha, quando eu já havia perdido todas as minhas forças, se alargou e correu pelo meio da terra formando um pequeno riacho que se bifurcou em dois longos braços que se esticavam levando águas para as sementes recém-geminadas... Meu trabalho agora era enxotar os pássaros e arrancar ervas daninha do meio das mudas, que cresciam verdejantes.

E foi assim que, depois de muitos dias a terra inteira floriu... E no meio do jardim, bem no lugar onde fica o coração da gente, brotou uma grande e majestosa árvore, que eu chamei de a Árvore da Vida. E ela está sempre cheia de frutos... E agora já não se faz mais necessário regar, pois as raízes das arvores descem fundo na terra e toda manhã cai um chuva fininha...

Eu mudei-me para um lugar confortável bem embaixo da Árvore da Vida. Agora todo dia, pela viração do dia AQUELE que semeou a minha alma com essas sementes que hoje são árvores feitas, me visita... E eu sinto que a vida recomeçou. Agora, mais do que nunca, eu sei que nos céus da alma também existem tempestades e noites escuras... Mas que a luz sempre surge quando a gente menos espera... E são tantas as formas que a luz tem para iluminar a alma da gente...
VBMello